Documento asteca histórico retorna ao México emprestado pela França
Cenas de poder e morte na mítica capital asteca de Tenochtitlán, conquistadores espanhóis, traições e decadência. É o que narra em pictogramas o histórico Códice de Azcatitlán, em exposição no México a partir desta quinta-feira (17), graças a um empréstimo da França.
O governo mexicano pede há anos a devolução do documento, uma crônica histórica pintada no século XVI por artistas indígenas, após a queda do império asteca sob o domínio espanhol.
Até 31 de dezembro, dois fólios do livro estarão expostos em uma urna de vidro, no Museu de Antropologia da Cidade do México. "Não sente a energia?", perguntou Emilia Mendoza, da comunidade indígena hñähñu, enquanto admirava o códice.
"Eles esconderam nossa história de nós, roubaram-na. Esta é uma batalha vencida, um primeiro passo para a restituição desses livros que vivem em outros países", afirmou à AFP Emilia, cujo povo, do estado de Hidalgo, pressionou pela devolução desses textos, pedida no ano passado pela presidente mexicana durante uma visita de seu colega francês.
Paris afirma que não pode restituí-los por motivos legais, mas um grupo de trabalho formado desde então conseguiu este primeiro passo: uma exposição cruzada do Códice de Azcatitlán no México e do Códice Boturini na França, coincidindo com o bicentenário das relações bilaterais.
Trata-se de "reunir um povo com sua memória", resumiu o chanceler Roberto Velasco, na abertura. "O México poderá contemplar o Códice de Azcatitlán. Seus pictogramas representam nossa história, a voz escrita de nossos antepassados e a raiz profunda da nossa identidade."
A França possui cerca de 70 manuscritos pictográficos originais, como códices ou documentos de tradição mesoamericana.
Os códices, que podem ser pictográficos, alfabéticos ou ambos, narram a história, os rituais e as crenças dos povos do que hoje é o México, antes e depois da chegada dos espanhóis no século XVI.
Com seus tons policromáticos de vermelho, azul, verde e amarelo, de guerreiros com cocares de penas a atos rituais em templos piramidais, o Códice de Azcatitlán reconta a história do México-Tenochtitlán: a migração da mítica Aztlán, a fundação da esplêndida cidade e a queda do império para os conquistadores e seus aliados indígenas em 1521. Ele foi elaborado em papel europeu e usa páginas opostas para formar cenas panorâmicas.
A exposição, que inclui outros códices, já começou a receber visitantes. "É algo que o país merece", disse a etno-historiadora Karen Trejo, 28. "Se é do México, por que não está no México?"
A Assembleia Nacional e a Biblioteca Nacional da França defendem a legalidade da posse dos códices. O Parlamento francês não os incluiu em uma lei que aprovou em maio para facilitar a restituição de obras saqueadas durante a colonização.
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